Luana Hansen

Luana Hansen


Tem feminismo negro e lésbico na área


Roberta Santiago


Provavelmente você já ouviu falar, talvez já tenha escutado alguma de suas músicas ou arrisque dizer que se trata de algum nome expoente do rap paulistano. Ok, não estaria de toda errada. Acontece que Luana Hansen é mais, muito mais do que qualquer estereótipo poderia definir. 

Mulher, negra, lésbica e periférica, Luana é DJ, MC, produtora musical e atriz. Como cantora, lançou “Marginal Imperatriz” e “Negras em Marcha”, os primeiros álbuns no Brasil produzido por uma mulher e que chamam a atenção também pelas letras que abordam violência doméstica, aborto, machismo, lesbofobia, a luta da mulher negra, genocídio da juventude negra e política.

Luana Hansen, que lançou recentemente uma versão lés de “Deu Onda”, com direito a videoclipe desconstruído e fora dos padrões estéticos, é artista militante, dessas que usam a voz para representar e empoderar outras mulheres negras e periféricas - principalmente as lésbicas e as trans.

Na adolescência, Luana assumiu em casa sua sexualidade. Foi difícil. Nas ruas, na comunidade onde morava, chegou a ser agredida por 15 rapazes simplesmente por ser lésbica. O tempo passou e, de lá pra cá, cada dia foi conquistado na batalha.

A vida deu voltas. Ou melhor: Luana foi, ela própria, a mudança que esperava ver no mundo. Fez isso cantando suas verdades por aí. Hoje, a DJ é figura certa em festas organizadas por coletivos de mulheres também negras, lésbicas, bi ou trans, periféricas, e em festas que compõem o cenário mais diversificado e representativo.

Em conversa com o Mundo Delash, Luana falou sobre sua trajetória de 17 anos de carreira: 

MDsh - Como você vê a situação da mulher, negra e lésbica na sociedade atual? Os espaços estão se abrindo ou se fechando, na sua opinião?

LH – Não vejo uma grande mudança, não. Qual negra lésbica você conhece que ocupe um lugar de destaque numa empresa? A mudança pontual está nesses grupos de mulheres negras se que reúnem, se preferem e criam espaços onde não possam ser hostilizadas. Hoje temos muitas festas voltadas só pra nós, como a DTMH (Don’t touch my hair), Sarrada do Brejo, a Batekoo, a Afrogeladinho, e por ai vai. Já que não dão espaços, a gente cria.

MDsh -  Qual a condição te faz sentir mais vulnerável: ser mulher, lésbica, negra ou periférica? E qual te faz sentir mais poderosa?

LH - Num país onde a cada 2 minutos uma mulher é agredida, onde uma Luana Barbosa é assassinada por exigir seus direitos e uma Claudia é arrastada pela policia, e onde, por serem todas negras e periféricas, nada se faz, não é questão de ser mais sou menos vulnerável, mas uma luta diária pela sobrevivência, porque de um jeito ou de outro você pode ser a próxima vítima. E, justamente por tudo isso e por saber da minha luta, é que me sinto tão poderosa quando estou do lado de outras mulheres afirmando que somos negras, lésbicas e periféricas.

MDsh - Como foi a construção dessa identidade?

LH – Foi natural. Através de andanças por tantos lugares, de amizades, de rodas de conversas, de saraus, de mesas de debates, ouvindo relatos, vivendo. Isso me faz ser quem eu sou e acreditar que a luta é árdua e diária em busca de uma sociedade mais justa.

MDsh - O que te fez despertar para a luta feminista? Alguma experiência pessoal adversa?

LH – Nunca entendi o lugar que sempre me era imposto – fosse na família, na sociedade. Mas a luta feminista veio mesmo por influência da minha amiga Elisa Gargiulo, que me levou a eventos feminista, me deu um livro, acreditou em mim quando nem eu acreditava mais. Isso me fez querer entender mais, saber mais, lutar mais. Desde então, todos os dias, a cada refrão que eu escrevo, tento eternizar nossa luta.

MDsh - Sofreu preconceito em casa quando se assumiu lésbica?

LH – Foi bem difícil me assumir em casa. Na verdade, eu nem sabia direito o que eu era. Faz mais de 20 anos, não tinha toda essa informação de hoje. Eu tinha 15 anos e era uma “menina hetero”. Não tive sossego, por onde eu andava, era xingada. Cheguei a ser agredida na rua por 15 rapazes por simples lesbofobia.

MDsh – E como foi romper com esses padrões?

LH - Nunca acreditei em padrões. Sempre nadei contra a maré, talvez por ser uma sonhadora, nunca quis estar no lugar onde diziam que era pra eu ficar. Na adolescência ainda, percebi que ninguém me daria nada e que provavelmente eu não seria nada, mudei minha vida.

MDsh – Quando soube que seria artista?

LH – Foi quando subi num palco pela primeira vez. Antes eu cantava no banheiro, na rua, onde estivesse. Daí me deram um microfone e disseram “vai lá, neguinha”. Foi inexplicável, e essa é até hoje a melhor sensação da minha vida.

MDsh - O que pretendia, então, com sua arte?

LH – O que venho fazendo: criar músicas que se tornem hinos de luta, como “Flor de Mulher”, que lembra a violência que sofremos, “Negras em Marcha”, que foi a marca da Marcha das Mulheres Negras em Brasíia, “Lei Maria da Penha”, que ganhou o prêmio da ONU Mulheres. Eu luto todos os dias pra que Luana Barbosa, Cláudia e o jovem Eduardo não tenham morrido em vão.

MDsh – Em 2016, você e Drika Ferreira foram selecionadas pro “Somos Mucho Mas”, o 1º Festival Internacional de Hip Hop Feminino em Cuba. Como foi representar seu país fora de casa?

LH - Foi mágico saber que tive quase 80% da passagem para Cuba paga por pessoas que acreditam no que eu faço. Quando subi no palco, chorei porque sabia o que estava vivendo a luta que foi estar lá. Hoje, após todo o acontecido, deixo o “Somos mucho mas” como nosso legado afro-latinoameriano e caribenho. VEJA O VÍDEO

MDsh - Cada vez mais, vemos jovens engajados com lutas sociais. Qual o seu recado pra quem tá começando agora?

LH - Lutem sempre. Mesmo quando tudo parece estar perdido, acredite. Mesmo sabendo que nada é garantia de sucesso, você vai ser sentir realizada, pois, como digo no trecho de “Flor de Mulher", “no seu jardim, nasceu a flor desobediente, enquanto ela existir, vai ser diferente".



E, para fechar, mais um dos trechos de Luana sobre seu, meu, nosso lugar na sociedade: 

Flor de Mulher

Sim eu sou mulher, estou pronta pra lutar
Sim eu sou mulher,vou sempre avançar
Sim eu sou mulher, ninguém vai me parar
Ninguém vai me parar!

*Imagens: Fridas Photos e Vídeos

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