O poder das palavras

O poder das palavras


Não se desesescolhe o que não é escolhido


Alexandre Rola


Até pouco tempo atrás não havia “nada de errado” na seguinte expressão: A opção sexual de determinada pessoa pode ser heterossexual ou homossexual. Ok, existem pessoas que podem não enxergar ainda hoje o erro na expressão, mas vou tentar ajudar.
Começando pelo fim, qual o sufixo das palavras heterossexual e homossexual? Sexual. E sexual nos dá a impressão de sexo, desejo, vontade, algo que vem e que, após saciado, passa.
De tempos pra cá, após longo estudo, inclusive de nossa Constituição e da Lei Civil, passamos a entender que o sufixo correto seria afetividade: heteroafetividade e homoafetividade. Mas por que isso?
Afeto é intimo, é próprio, não passa. Você não ama alguém um dia e no outro deixa de amar (falo daquele amor de verdade, tipo o que sentimos pela mãe ou pelo pai); não deixa de ter afeto após este ser saciado. Ora, nunca se está saciado de afeto! Aquela sensação gostosa de estar com alguém que se ama só aumenta, se estabelece, perdura; é sempre presente e sempre fortalecedor.
Não se formam laços de família pelo sexo, mas sim pelo afeto.
O outro erro na frase lá do começo é a palavra “opção”. Não se trata de uma opção, escolha. Ninguém decide pela manhã: hoje vou de blusa polo, calça jeans e serei heteroafetivo, mas no final de semana talvez seja homoafetivo para ir naquela festinha.
Antes de mais nada, os biafetivos não escolhem ser hetero ou homoafetivos de um dia para outro dia. A situação é diferente, eles podem ter afeto com pessoas de mesmo ou de diferente sexo. [Nota: não gosto da expressão 'sexo oposto' porque induz a divergência, briga, confronto. De todo modo, aqui o sentido é o biológico, gênero, masculino ou feminino]. Pessoas biafetivas podem se relacionar eternamente com uma só pessoa e mesmo assim manter sua orientação como biafetiva. O cerne da questão é afetividade, lembre-se!
Mas voltando, não existe opção, ninguém escolheu ser heteroafetivo. Porque RAIOS as pessoas acham que alguém escolhe ser homoafetivo?
Trata-se de uma orientação bio-socio-pscico-cultural. A pessoa tem em centro a certeza (que para os homoafetivos às vezes demora ser descoberta em razão das pressões da sociedade) de que seu afeto é para com pessoas de mesmo ou diferente sexo.
O fato de se defender o direito de alguém procurar um profissional da psicologia para “desescolher” algo que não escolheu é o mesmo que alguém procurar um ortopedista pedindo para remover uma de suas pernas porque escolheu não ter mais duas pernas.
Acredito que quando todos os pesquisadores, psicólogos, juristas, médicos (e o raio que o parta) passarmos a usar as terminologias adequadas, vamos deixar de acreditar ser o afeto uma opção.

*Alexandre Marques Rola é advogado especialista em direito público. Uma de suas linhas de atuação é junto às famílias homoafetivas e sua busca por direitos.

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