Troca de experiências

Troca de experiências


Uma conversa sobre gênero, sexualidade e respeito com as adolescentes internas do DEGASE


Roberta Santiago


Pense numa experiência daquelas capazes de mudar a mente, os paradigmas e a nossa maneira de pensar e agir. Agora potencialize todo esse impacto por incontáveis rostos que te olham atentamente num auditório de um centro de detenção para jovens infratoras. Pois assim foi a ida do Mundo Delash esta semana ao Degase, o Departamento Geral de Ações Socioeducativas, no Rio. 

A convite da professora de língua portuguesa Leticia Debom, fomos à unidade da llha do Governador bater um papo com as adolescentes sobre sexualidade, gênero e respeito. Como faz parte da nossa missão sempre agregar, convidamos as psicólogas Vanessa Vargas, Natalie Duarte e Clarice Moreira, da Rede Postinho Saúde Preventiva da Mulher, e as também psicólogas Shenia Karlsson e Claudina Damasceno, criadoras do projeto Papo Preta, para completar um time capaz de abordar com sensibilidade e conhecimento estes assuntos. 

Segundo dados da própria escola, que é estadual e funciona dentro da unidade, muitas das meninas – com faixa etária de 12 a 18 – se identificam como lésbica e mantém relações afetivas e íntimas entre si durante o período de detenção. A pouca orientação sobre sexo seguro e a possibilidade de contaminação por DSTs são fatores preocupantes, mas a falta de aceitação e respeito em relação à identidade sexual assumida lá dentro por elas mesmas ainda é o que mais preocupa toda a direção e os professores. 

São cerca de 50 alunas, que se dividem entre Marias x Joãos, um menino trans e duas meninas trans, que obtiveram na justiça o direito de serem chamadas por seus nomes sociais e de se instalarem no alojamento feminino, mas que não estão sendo muito bem aceitas pelas demais. Marias são aquelas que correspondem mais ao estereótipo feminino: cabelo longo, maquiagem, pelos aparados, roupas justas ao corpo. Joãos são as de cabelo curto, que usam bermuda baixa e assumem o papel de “homem da relação”. 

O ambiente, a princípio, nos pareceu opressor. Alojamentos com grades na janela, inspetores para todo lado, pátio vazio e muitos ambientes separados por contenções. Não tínhamos ideia de como seria este encontro, somente que elas e os professores e diretores estavam bastante ansiosos pela visita e pela conversa. Para sentir qual seria o nosso grau de aceitação e por onde começar, sentamos alinhadas de frente para a turma, nos apresentamos e pedimos que fizessem o mesmo.

Não podemos esquecer que, antes de qualquer fator que as tenha levado até a internação, elas são adolescentes e que naturalmente não prestam atenção em nada por mais de 20 segundos ou sequer ficam sentadas. Shenia e Claudina abriram o papo propondo um ousado tema, o da “Subjetividade”: quem sou, como me identifico enquanto indivíduo, do que gosto, do que não gosto, como me vejo e como quero ser reconhecida. Em meio a um turbilhão de respostas, perguntas e provocações, começavam a surgir falas interessantes. 

Eu sou mulher porque eu me sinto mulher”, disse X, uma das meninas trans. Shenia emendou: “Alguém aqui pode dizer que ela não é?”. Silêncio e respostas de negação. “Então, isso se chama respeito à subjetividade dela. Ela é quem quiser ser e todas devem aceitar”. Ponto. Recado dado e o debate que segue.

De forma meio desordenada e eufórica, elas tentavam nos explicar o que diferenciava as Marias das Joãos. Para criar mais empatia e proximidade, e poder falar sobre estereótipo de gênero com conhecimento de causa, era chegada a hora de nós mesmas assumirmos nossa orientação sexual. A revelação levou as meninas a um alvoroço engraçado e envolvente, e logo começaram a nos rotular: “aquela é João, aquela é Maria” e coisas do tipo. 

Num dado momento, me levantei e perguntei o que eu parecia.

- João, por causa do cabelo
- Claro que não, ela tá de unha pintada
- Mas olha o jeito como você tava sentada, tia

Depois de rir e concordar com algumas das análises, eu disse que era apenas Roberta, lésbica, que tinha duas filhas das quais eu não tinha engravidado e que nem por isso eu era o pai. Bom, parece óbvio, mas foi para deixar claro a elas que, na verdade, na verdade, esse lance de assumir um papel ou outro é importante – principalmente por conta da idade e das circunstâncias em que vivem, mas que o mais importante mesmo era que todas as opções de aparência e comportamento fossem ser respeitadas, dentro e fora da detenção. 


Ao longo das quase duas horas de conversa, algumas contaram de si e de suas experiências. Falaram sobre vida sexual e relacionamentos, sobre respeito e individualidade. Foi um encontro de muitas trocas, para o qual levamos algum conhecimento, mas do qual sobretudo extraímos muito mais. Entrar em contato com aquela realidade, com todas aquelas experiências tão múltiplas sobre sexualidade e identidade, todas aquelas personalidades por vezes conflitantes, mas que estão ali justamente tentando se entender, foi das vivências mais profundas e enriquecedoras dos últimos tempos – quiçá de uma vida. 

O Mundo Delash não cansa da agradecer às pessoas que nos dão oportunidades de crescimento e envolvimento em projetos como estes. Muito obrigada, Letícia. Agradecemos e parabenizamos também à diretora adjunta Dani Farias, ao diretor Sr. Paulo Bento e a todo o corpo docente do Centro de Socioeducação Professor Antonio Carlos Gomes da Costa.