Era uma vez... Metanoia

Era uma vez... Metanoia


Há 7 anos, a Editora Metanoia contempla o público com o melhor da literatura LGBT para adultos e crianças


Roberta Santiago


Livros são dos melhores presentes que se pode receber. Bem, eu sempre achei. São móveis, surpreendentes, cheirosos e fiéis às histórias que carregam – além de divertidos. Por isso, logo que minhas filhas nasceram, uni o útil ao agradável e comecei a pesquisar títulos infanto-juvenis que abordassem questões mais inclusivas. Primeira surpresa: não foi difícil. Depois: opa, uma editora com mais de um título com a temática LGBT e voltada pra crianças? Pois sim!

Do grego, “mudança de mentalidade” ou “uma nova forma de pensar”, Metanoia. Este é o nome da editora que há 7 anos vem ajudando a desmistificar, num trabalho árduo e gradual, alguns paradigmas da sociedade, usando para isso um meio eterno e sempre atual: a literatura.

Conversei com Lea Carvalho, que idealizoua editora em conjunto com sua esposa, MaLu, e mais um casal de dois rapazes, depois de constatarem uma lacuna real no mercado editorial de literatura gay. Na época, o grupo de amigos, que é cristão,costumava se reunirpara discutir a desconstrução do discurso homofóbico religioso e se incomodava por não encontrarliteratura em português que servisse de apoio.

“A MaLu é designer gráfico e já trabalhava em editoras. Resolvemos encarar o desafio de ser a primeira do Brasil a publicar Teologia Inclusiva, além de outros temas dentro deste universo, que vão desde literatura infanto-juvenil, até romances, livros acadêmicos e livros religiosos que desconstroem o discurso demonizador e excludente das denominações cristãs hegemônicas”, disseLea,lembrando que, dos 115 títulos publicados neste tempo de estrada, cerca de 100 tratam sem medo de temas ainda considerados tabu como: “Gênero e Sexualidade” e “Diversidade Religiosa”. 

“A espiritualidade e a sexualidade são questões identitárias, imprescindíveis para a construção de nossa visão de mundo: uma não exclui a outra. Pelo contrário, são complementares. Por isso, uma pessoa LGBT não pode ser privada do exercício da sua espiritualidade por causa de sua identidade de gênero ou de sua orientação sexual. É perverso e injusto”, afirmouLea.

O público da editora é bem variado: pais e professores, que utilizam a literatura infantil para comunicar às crianças que todos e todas são iguais e que não há motivos para rejeitarmos as pessoas pela forma que creem, amam e se expressam; jovens que se veem contemplados nas histórias e que, através delas, desabrocham para exercer desejos e afetos de forma alegre, sem medos ou culpas. Neste último público há, adentrando um dado muito triste de sua realidade, pessoas que tenham sido rechaçadas por suas famílias e igrejas, por causa de uma forma literal e excludente de se ler a Bíblia. Por isso eles buscam (e encontram) nos livros da Metanoia a certeza de que “Deus não faz acepção de pessoas e que as ama do jeitinho que são”, segundo palavras de Lea.

Há ainda títulos de literatura mais conceitual, produzida por professores universitários e que circula não só no meio acadêmico, mas que é oferecida a escolas e a todas as pessoas que querem avançar nas questões de gênero e sexualidade.

Além dos títulos infanto-juvenis e adultos, a editora conta com o selo Crianças Diversa, que permite que crianças conheçam o modo de ser e estar no mundo de outras crianças, e aprendam que não é preciso ter medo ou raiva do que é diferente. Lea Carvalho frisou ainda que “elas [as crianças]é que têm potencial de transformar nossa realidade excludente em algo mais justo e igualitário no futuro”. Certíssima!

Provando a boa qualidade de seu conteúdo – ainda que não fosse necessário, um dos títulos infantis mais recentes da editora, “A Princesa e a Costureira” de Janaína Leslão, tornou-se uma peça de teatro infantil em São Paulo e este ano foi premiada pela Associação de Críticos de Arte.


Fiel ao movimento de sempre agregar, unir pelas diferenças e ressaltar as semelhanças, a Metanoia mantém um canal aberto com o público leitor e também com aqueles que gostariam de publicar seus próprios trabalhos. No site, existe a seção Seja Autor, na qual você pode apresentar seu trabalho original à equipe editorial, que analisará e, se aprovado, sua obra pode ser selecionada para publicação.


*Roberta Santiago é a radiante 'mamã' de Lelena e Bolívia, casada com a Juliana e, btw, uma das editoras do Mundo Delash. ♥
*Imagem: Reprodução Facebook Metanoia

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